A mais longa viagem de nossas vidas
Éramos dois jovens repletos de sonhos quando resolvemos fazer uma viagem juntos, a que podemos chamar de “a mais longa viagem de nossas vidas”, meio que assim sem rumo, sem muito planejamento ou expectativas.
Apenas seguindo os nossos instintos, nos deixando levar pelas circunstâncias, com a bagagem leve e pouca experiência, motivados pelo calor do momento, otimismo, coragem e ingênuas expectativas. Porém nada nas malas que nos impedisse de seguir essa aventura de corpo, mente e alma, para aproveitarmos melhor cada momento vivido durante todo nosso percurso.
Cada vagão do trem foi explorado, com muito vigor, muito namoro, muitos beijos, muita descoberta, muitas conversas, risos frouxos e planos futuros, ingênuos, mas eram os nosso planos.
Você consegue se lembrar de como foram ótimos os primeiros anos?
Eram tempos dourados, devo admitir, mas a monotonia em alguns momentos espreitavam nossa viagem, principalmente quando a locomotiva vagueou por caminhos mais difíceis, complicados, mais lentos, tortuosos. Aquelas subidas tristes, aqueles climas frios, tempestuosos e aquelas curvas arriscadas transformaram nossa viagem. Podemos afirmar que a viagem também transformou a gente.
Passávamos cada vez menos tempo juntos, cada um à sua maneira tentando arrumar meios de seguir com o plano inicial. O importante era a viagem, não é mesmo? Deixamos de protagonizar a nossa própria história em prol dessa máxima e após vários capítulos em branco, percebemos uma coisa interessante: o destino nunca havia sido discutido, o nosso destino. Para onde estamos indo? O que queremos com isso? Qual a finalidade disso?
Estávamos apenas seguindo, no conforto daqueles trilhos, e avançávamos o mapa conforme conhecíamos cada uma das estações. Isso nos impediu de conhecer diversas experiências como um casal, o que nos causa danos profundos até hoje.
E como todo bom estrategista recomendaria, resolvemos rever o plano obviamente, e quando optamos por retomar o controle da viagem, descobrimos outro ponto importante: as expectativas do destino já não eram mais compatíveis.
Nãoooooooo!!!!!!!!!
Cada um de nós desejava seguir para um lugar diferente. Na verdade, cada um no seu tempo e de maneiras diferentes. Como se cada pessoa envolvida não fosse mais a mesma do início da jornada. Não éramos estranhos, mas a descoberta dos interesses individuais foi sim uma fatalidade.
Eu te pergunto: É possível completar uma viagem contemplando os lugares onde cada um gostaria de visitar, mesmo que o outro deteste a ideia de compartilhar experiências que o desagradam?
Como conhecer culturas diferentes, idiomas, climas, cheiros, comidas e sabores exóticos sem que isso cause dor, sofrimento ou mágoa?
Até porque, mais do que natural que os interesses sejam mesmos diferentes. Estranho seria se combinássemos em tudo. Onde estaria o tempero disso tudo?
Cada etapa de nossas vidas demandou uma nova versão de nós e a cada parada em cada uma das estações, despertou em nós sensações e interpretações diferentes da vida.
Já que ninguém é obrigado a nada, ninguém deve se privar por causa do outro mas também ninguém tem o direito de privar o outro de fazer o que ele acha certo. Nossas opiniões e anseios acerca disso, por mais que discutidas abertamente, eram e ainda são divergentes com relação à essas expectativas. O que começou sem muita regra na primeira plataforma na qual embarcamos, descambou para uma balbúrdia de regras sem muito nexo ou regras excessivas, que engessam qualquer plano, matando assim todas as possibilidades de conhecimento e aprendizado dessa viagem. Mesmo que o outro ache um absurdo ou ache bobagem, o respeito das decisões individuais é o que deve imperar no final das contas. A ideia era que fosse prazerosa, se lembra disso?
Sim, fomos alertados que se perdêssemos essa chance, não haveria outra, não neste plano pelo menos. Assim como também sabemos que o bilhete tem prazo de validade indeterminado, e que a viagem pode ser compartilhada mas as experiências são únicas, individuais e intransferíveis.
Talvez o fim esteja próximo. Talvez um de nós queira descer já na próxima estação, enquanto o outro ainda deseja prosseguir com o trajeto desejado.
Mesmo que tenha se passado cinco, dez, quinze ou vinte anos desde o início da missão, concluímos que ao menos tentamos discutir um trajeto que contemplasse o desejo de cada um, e isso já valeu por todo o percurso. Ter a maturidade suficiente de reconhecer quais pontos do mapa são importantes para nossas vidas e correr atrás disso, é o que faz tudo ter valido a pena.
O importante é não surtar diante das adversidades, que foram muitas ao longo desse trajeto mas que continuarão a ser desafiadores. Quem disse que seria fácil? A vida não possui um manual de sobrevivência e, a cada fase, o nível das dificuldades só aumenta.
Talvez devamos nos separar por aqui mesmo, já na próxima estação.
Ou não.
Talvez tenhamos que elaborar outro plano de viagem, uma que seja compatível ou mais próxima disso.
Talvez possamos viver nossas experiências individuais assim como acreditamos que devem ser.
Talvez possamos nos encontrar novamente em alguma estação de algum outro destino e possamos compartilhar as experiências adquiridas, os arrependimentos em algum lugar perdido do mundo... ou não…
Todavia, se conseguirmos encarar isso numa boa, conseguiremos enfrentar qualquer coisa juntos.
Então qual será o nosso próximo destino?
Eu sinceramente não tenho essa resposta, mas adoraria que você estivesse comigo para descobrirmos e explorarmos juntos.
Rich & Hard
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